quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Prefácio

       

ANNE Frank pertencia a uma família judaica de Frankfort que, em 1933, fugindo às perseguições do regime hitleriano, se refugiou na Holanda, onde supunha encontrar a paz e a segurança. Mas, logo depois da invasão da Holanda pelos alemães, as perseguições aos judeus continuaram ali com tal violência que os Frank resolveram - mergulhar -, designação que então se dava ao desaparecimento voluntário de pessoas perseguidas ou por razões políticas ou por discriminações raciais e que passavam a ter uma existência ilegal ou clandestina. Durante dois anos, que abrangem o período de guerra de 1942 a 1944, não podem sair à rua e vivem sob a constante ameaça de serem descobertos pela polícia.
Anne, rapariga em pleno período de desenvolvimento físico, esse período delicado e importante na vida de qualquer adolescente, mas especialmente decisivo quando se tem uma sensibilidade e uma inteligência como a dela, escrevia com regularidade um diário, em forma de cartas, a uma amiga imaginária. Este diário tornou-se não só um dos mais comoventes depoimentos contra a guerra, contra a injustiça e a crueldade dos homens como, também, um dos mais puros documentos psicológicos que todos, e sobretudo os que contactam com gente nova, deviam ler.
Anne não escreveu o seu diário a pensar na publicidade, nem porque fosse incitada a fazê-lo, mas única e simplesmente porque tinha de o escrever para si própria, para - aliviar - o coração, como ela diz várias vezes, por essa forte necessidade íntima que caracteriza o artista e a que ela não se poderia furtar, nem que quisesse.
"Quando escrevo sinto um alívio, a minha dor desaparece, a coragem volta... Ao escrever sei esclarecer todos os meus pensamentos, os meus ideais, as minhas fantasias".
Não se trata, portanto, e isto é fundamental, de uma dessas produções de menino prodígio, lançado e explorado pela família comercialmente, mas sim de uma autêntica obra de arte a que um crítico suíço chamou - uma confissão clássica da puberdade de hoje, que ultrapassa todos os limites do circunstancial.
Como é que foi possível escrever-se uma obra destas entre os treze e os quinze anos de idade? Tão extraordinário caso tem a sua explicação: o isolamento, os sacrifícios diários, as angústias, o medo e, principalmente, a morte, a pairar sobre esta criança de uma inteligência e de um espírito de observação invulgares, fizeram com que ela amadurecesse prematuramente e fosse assim, pouco a pouco, penetrando em regiões que, em circunstâncias normais, só viria a explorar muito mais tarde. Ela própria sente isto e explica-o: "Vim para o anexo quando tinha treze anos e, por isso, fui obrigada a reflectir mais cedo sobre o Mundo e a fazer a descoberta de mim mesma como de um ser humano que deseja ser independente. No entanto é preciso notar: Anne não perde a frescura infantil nem esses gostos próprios do adolescente, como por exemplo coleccionar fotografias de artistas de cinema ou fantasiar-se com as roupas dos adultos. É que Anne não é um monstro, Anne é apenas uma adolescente a quem quiseram roubar o direito de o ser.
Nem a criança nem o adolescente sabem, em regra, compreender-se e analisar-se. É o adulto que, com a distância dos anos, a experiência da vida, a cultura e a serenidade indispensáveis, contempla e interpreta estes períodos passados da sua vida. Por isso Anne Frank há-de ser um dos casos à parte na literatura universal, com um significado denso e único.
Anne Frank vivia torturas que marcam qualquer indivíduo de qualquer idade mas muito especialmente um indivíduo em formação. Forçada a viver como um pássaro na gaiola. Sinto-me como um pássaro a quem cortaram as asas e que bate, na escuridão, contra as grades da sua gaiola estreita -, afina os sentidos, concentra-os sobre o pequeno espaço em que a sua vida e a dos companheiros de destino se move, procura não só desabafar a sua revolta de adolescente, de judia expulsa da comunidade dos homens, vítima de uma guerra impiedosa, mas, também, encontrar as explicações e as interpretações de tudo isto.
Ao leitor atento não pode escapar o crescendo dos apontamentos de Anne, tanto no que respeita ao seu espírito analítico como à própria força emocional. Se as primeiras páginas, escritas ainda no período de liberdade, são puramente infantis e correspondem à sua idade real, as últimas, que precedem a interrupção definitiva do diário, são de uma tal maturidade que nos fazem estremecer pelo seu profundo poder de introspecção e compreensão.
- Vejo-me em todos os meus atos como se tratasse de uma pessoa estranha. Enfrento esta Anne com absoluta imparcialidade, sem pretender desculpá-la e observo o que ela faz de mal e de bem. Esta autocontemplação nunca me larga, e não posso pronunciar uma palavra sem pensar logo em seguida: "devia ter dito isto de outra maneira", ou: "foi bem dito...".
Os outros só nos podem dar conselhos ou indicar-nos o caminho a seguir. Mas a formação definitiva do carácter está nas próprias mãos de cada indivíduo.
Reencontramo-nos em Anne! Sentimos a verdade, nua e crua, em cada uma das suas palavras. E é precisamente por isso, pela identidade dos sentimentos humanos, independentes de latitudes e de raças, que esta obra ganha cunho de universalidade, de documento humano.
Eis a pergunta que nos surge: terá a morte, sempre à espreita, dado a Anne um empurrão mais forte, obrigando-a urgentemente a apanhar e exprimir a vida em flagrante, antes de esta lhe fugir?
Ao considerar que Anne se limita quase exclusivamente a apontar os acontecimentos diários da vida no esconderijo, verificamos com espanto que nunca lhe falta assunto. Até uma caneta, que por engano foi parar ao fogão e ardeu, lhe serve para escrever uma "Ode à minha caneta". Num estilo simples, cristalino, invulgar em pessoas da sua idade, que costumam usar uma linguagem pretensiosamente - literária -, desenha, com admirável facilidade, o ambiente e as pessoas.
Todas as figuras se tornam nossas conhecidas, familiares, com as suas atitudes e os seus comportamentos tantas vezes contraditórios e, justamente por isso, tão reais. Anne não vê com sentimentalismo nem com ódio, e como no seu mundo não há ninguém perfeito nem ninguém absolutamente imperfeito, todos são vivos, quase palpáveis.
É óbvio que as reações de Anne dependem muito da sua disposição e que as suas personagens surgem filtradas pelas suas dores, desânimos, alegrias, paixões e perspectivas, de modo que umas vezes são mais aceitáveis do que outras. Mas não é assim, mesmo na vida, e não vemos nós, ao fim e ao cabo, as pessoas não apenas como são, mas também conforme a nossa disposição do momento?
Não falta a Anne aquele raro dom que Thomas Mann considerava indispensável para se seguir uma obra de arte: o sentido do humor. Estudando-se sempre a si própria, ela reconhece os seus defeitos e as suas qualidades. E quanto ao seu sentido do humor diz: "...e mesmo nos momentos mais perigosos, vejo ainda o cómico da situação e não posso deixar de me rir". Se, por um lado, o próprio Thomas Mann está presente nesta frase, está-o talvez mais ainda Charlie Chaplin. Não vê ele nos momentos mais trágicos, mais perigosos - e mesmo na sua balada judaica "O Ditador" - o cómico das situações?
Assim, parece-nos verdadeiramente chaplinesca a descrição do assalto ao armazém, nessa terrível noite que ficará gravada na memória de todos como a mais angustiosa das noites passadas no anexo, onde se pressente, apesar do abalo forte que Anne sofreu, o sorriso a brincar-lhe nos lábios quando ela, por exemplo, conta como acordou com a cabeça da sra. van Daan em cima dos seus pés. Chamamos também a atenção para cenas como aquela em que o grupo - mergulhado - descasca as batatas, ou aquelas em que a sra. van Daan desafia o marido com as suas conversas políticas. Em meia dúzia de traços, através de diálogos vivos e sem que a autora intervenha a explicar as personagens, elas são recortadas de modo que se nos revelam com todas as suas virtudes, manhas e limitações.
Talvez haja momentos em que Anne possa parecer-nos demasiado dura, sobretudo quando fala das suas relações com a mãe, ou se queixa do pai, este admirável homem que ela, bem o sentimos, coloca acima de tudo e de todos. Mas a dureza de Anne não é mais do que o resultado do conhecido conflito da adolescência a que ela, por ser inteligente e incapaz de aceitar as coisas incondicionalmente, dá expressão. O choque com a mãe, pouco atenta aos problemas íntimos da fiLha, é inevitável e agrava-se devido às circunstâncias em que são obrigadas a conviver. Provavelmente, ter-se-ia atenuado numa vida normaL, como aliás a própria Anne reconhece mais de uma vez.
Todos os - mergulhados - sofrem as consequências daquele isolamento. Sentimos-lhes a tensão nervosa que, em grande parte, provém da saturação de um convívio ininterrupto e forçado, em espaço tão restrito. E Anne, vendo como a mesquinhez se apodera daquela gente a que falta a liberdade, põe-na em flagrante contraste com esses corajosos holandeses, os protetores do pequeno grupo, que, sempre que entram em cena, trazem consigo a aragem fresca do mundo exterior.
Mas, apesar de tudo, dá-se no pequeno mundo de sofrimentos do - anexo - o eterno milagre da vida: o despertar do amor entre Anne e Peter. São de uma insuperável pureza as descrições dos seus primeiros idílios. "Quando o Peter e eu estamos sentados num caixote duro, no meio de ferros velhos e de pó, muito juntos, eu com um braço em volta dos seus ombros, ele com um braço em volta dos meus ombros, quando ele brinca com uma madeixa do meu cabelo, quando lá fora se ouve o chilrear dos pássaros, quando se vêem as árvores a pintarem-se de verde, quando o Sol nos chama e o ar é todo ele azul, oh!, então os meus desejos são infinitos". Mas sabemos desde logo que aquele rapaz bonito, bom, um tanto simplório, não pode corresponder às ânsias e exigências de uma rapariga como Anne que, em determinada altura, aponta no seu diário: "O melhor seria que ele, na maior parte das vezes, estivesse acima de mim", e mais tarde: "O Peter e eu passamos os dois anos mais importantes para a nossa formação aqui no anexo, falamos muitas vezes sobre o passado, o presente e o futuro, mas, como eu já disse, sinto a falta de qualquer coisa de mais autêntico; e eu tenho a certeza de que essa coisa existe". De resto, Anne, pela força e intensidade da sua vida interior, pela sua imensa sede de penetrar nas profundidades da vida e ainda pelo que nela há de extraordinário, digamos mesmo de maravilhoso, e, em certa medida, de inacessível para pessoas como o Peter van Daan, está, desde logo, condenada àquela solidão de todas as pessoas que ultrapassam os limites das normas gerais.
Por tudo o que neste livro está expresso: os problemas comuns a todos nós - a nossa coragem, as nossas fraquezas e, também, as nossas esperanças, apercebemo-nos mais do que nunca do absurdo de todas as teorias de discriminação racial. Ninguém pode deixar de sentir, ao ler as cartas de Anne Frank, como, ao fim e ao cabo, as alegrias e as lágrimas humanas são as mesmas em todos os seres humanos e em todas as partes do mundo.
Assim o sentiu, também, a juventude alemã de hoje, cuja reação perante esta obra talvez seja, desde há muito, o mais luminoso clarão de esperança que temos visto brilhar.
Anne Frank, vítima de uma época de injustiças e de violências desumanas, tornou-se um símbolo. As várias manifestações de simpatia de que é objeto culminaram, em 1 de Março último, com uma peregrinação de jovens alemães ao antigo campo de concentração de Bergen-Belsen, onde o corpo de Anne foi atirado, com centenas de milhares de outros corpos, para a vala comum. Não queremos trilhar os caminhos dos nossos pais , é o lema desta nova juventude.
E vem-nos à mente esta frase que Anne escreveu pouco antes da sua deportação para as fábricas da morte: "Creio no que há de bom no homem" frase que define toda a força e generosidade dessa pobre criança, radiante da sua mocidade, que soube exprimir todo um mundo de problemas da juventude dos nossos dias: "Eis a dificuldade do nosso tempo: mal começam a germinar em nós ideais, sonhos, belas esperanças, logo a realidade cruel se apodera de tudo isto para o destruir totalmente".
Mas não conseguiram destruir a força de Anne Frank. A sua obra, já traduzida em dezenove línguas e estudada nas classes superiores dos liceus alemães, ergueu-se como implacável libelo contra os seus assassinos. Anne Frank vive e continuará a viver ainda por muito tempo. Em 4 de Abril de 1944 escreveu: - Quero continuar a viver depois da minha morte. Cumpriu-se o seu desejo.
Para nossa orientação e para melhor podermos informar o leitor, pusemo-nos em contato com o sr. Otto Frank, pai de Anne, o único sobrevivente das oito pessoas que viveram escondidas no anexo. Eis os esclarecimentos que nos deu: Os oito - mergulhados - foram primeiro encerrados no campo de concentração de Westerbrok, na Holanda, e depois transferidos para o campo de Auschwitz, na Alta Silésia, nos princípios de Novembro de 1944. Anne e sua irmã foram levadas para o campo de Bergen-Belsen, no norte da Alemanha, onde ambas morreram.
Nunca se pôde averiguar quem denunciou o esconderijo.
Os adultos falavam quase sempre em alemão, porém os adolescentes, que tinham frequentado a escola de Amesterdão, preferiam falar e escrever em holandês.
Salvaram-se e ainda existem alguns dos contos de fadas e outras histórias que Anne escreveu. Dois deles estão publicados em língua holandesa e alemã com os títulos: Wetje nog e Weisst du noch, respectivamente.



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