sábado, 30 de julho de 2016

Sábado, 15 de julho de 1944





O Diário de Anne Frank


Sábado, 15 de julho de 1944


Querida Kitty


Recebemos da biblioteca um livro com um título que era um desafio: Que pensa você da jovem moderna? Quero falar sobre isso com você.
A autora do livro condena a "mocidade de hoje" da cabeça aos pés, sem condenar, no entanto, os jovens em geral como "incapazes de qualquer coisa boa". Ao contrário, acredita que estaria nas mãos dos jovens construir um mundo melhor e mais belo, se simplesmente quisessem; mas diz que a maioria se ocupa de superficialidades, sem parar para pensar na real beleza.
Em algumas passagens a escritora parecia estar se dirigindo especificamente a mim com suas críticas, eis por que desejo mostrar-me a você completamente desnudada e me defender desse ataque.
Tenho em meu caráter um traço predominante que salta aos olhos de quem me conhece há algum tempo: é o conhecimento que tenho de mim mesma. Consigo fiscalizar-me e aos meus atos como se fosse uma estranha. Sou capaz de encarar a Anne de todos os dias sem preconceitos e sem fazer concessões, observando o que nela há de bom e de mau. Essa autocrítica me acompanha sempre, e, cada vez que falo alguma coisa, sei imediatamente se devia ter falado de outra maneira ou se estava bem assim. Há muita coisa que condeno em mim. Seria uma longa lista! Cada vez mais, reconheço a verdade que havia nas palavras de papai: "Toda criança tem que zelar pela própria educação". Aos pais cabe dar conselhos e indicar caminhos, mas a formação final do caráter de uma pessoa está em suas próprias mãos.
Somado a tudo isso, sou dona de grande coragem, tenho espírito forte, capaz de suportar difíceis encargos, sinto-me livre e jovem! Fiquei contente quando descobri isso pela primeira vez, pois creio que não me curvarei facilmente aos golpes que, inevitavelmente, atingem a todos.
Mas já falei nestas coisas muitas vezes. Quero agora abordar o capítulo "papai e mamãe não me compreendem".
Papai e mamãe sempre me encheram de mimos, foram carinhosos, defenderam-me, fizeram tudo o que os pais podem fazer. Mesmo assim, durante longo tempo senti-me terrivelmente isolada, rejeitada, desprezada e mal compreendida. Papai fez o que pôde para conter minha rebeldia, mas não adiantou, eu é que me curei sozinha enxergando e procurando corrigir meus erros. Como foi que papai jamais conseguiu me sustentar em minhas lutas, como foi que ele errou por completo, mesmo querendo estender-me a mão? Porque ele escolheu o método errado, falando-me sempre como a uma criança que está atravessando uma fase difícil. Parece idiotice dizer isso, pois papai foi o único que sempre me deu um crédito de confiança fazendo com que eu me sentisse ajuizada. Mas uma coisa ele não percebeu — compreende? —, não percebeu que, para mim, a luta por chegar ao fim era o mais importante de tudo. Não me interessa ouvir falar sobre "coisas da idade", "outras meninas" ou "é uma fase que passa"; eu não queria ser tratada como as outras meninas, mas como Anne e por meus próprios méritos. Infelizmente Pim não percebeu isso. Acontece que eu não posso confiar em quem também não me abra seu coração e, como sei muito pouco de Pim, sinto que jamais seremos muito íntimos. Pim sempre toma as tradicionais atitudes paternais dizendo que ele também passou por fases semelhantes às minhas. Nunca vai poder relacionar-se comigo como amigo, nem que o tente com a maior boa vontade.
Todas essas coisas fizeram com que eu jamais mencionasse meus ideais e teorias sobre a vida a ninguém a não ser meu diário e, uma vez ou outra, a Margot. Escondi de papai tudo o que me perturbou, não compartilhando com ele meus ideais. Conscientemente o afastava de mim, mas não conseguia agir de outra maneira. Procedi sempre de acordo com meus sentimentos e de modo a ter consciência tranqüila e paz de espírito. Eu perderia a confiança obtida através de tantos obstáculos vencidos se, nesse ponto, aceitasse críticas à minha tarefa quase terminada. Apesar de parecer muito dura, não posso aceitar isso de Pim, não só porque não compartilhei com ele meus pensamentos mais secretos como porque acabei afastando-o de mim com minha instabilidade.
Penso muito nisto: por que será que Pim me irrita? E de tal forma que detesto que me ensine qualquer coisa? Suas maneiras afetuosas me parecem afetadas; queria que me deixasse em paz e preferia mesmo que me esquecesse por algum tempo, até que me sentisse mais segura em minha atitude para com ele. Ainda me rói um sentimento de culpa por causa daquela carta horrível que escrevi a ele, no tempo em que eu andava supertensa. Como é difícil ser realmente forte e corajosa em todos os sentidos!
Mas esse não foi meu maior desapontamento. Peter atingiu-me mais que papai. Bem sei que fui eu quem o conquistou, não ele a mim. Formei em minha mente uma imagem de Peter, pintei-o como um rapaz quieto e sensível, digno de amor, carente de afeição e carinho. Precisava de alguém para com ele abrir meu coração; queria um amigo que me ajudasse a encontrar o caminho certo. Devagar, mas com segurança, atraí Peter para mim. Finalmente, ao conseguir que ele se tornasse amigo, automaticamente desenvolveu-se entre nós uma intimidade que, pensando bem, eu não deveria ter permitido.
Falamos em coisas bem íntimas e no entanto, até hoje, jamais tocamos nas coisas que enchiam e ainda enchem minha alma e meu coração. Ainda não sei o que pensar de Peter. Será ele superficial ou ainda acanhado, mesmo comigo?
Sem contar com isso, no meu desejo premente de afeição, cometi um erro: tentei chegar a ele por meio de um relacionamento íntimo, quando devia ter explorado todas as outras possibilidades. Ele deseja muito ser amado, e noto que está começando a se apaixonar por mim. Nossos encontros o satisfazem, ao passo que em mim, apenas despertam a vontade de, mais uma vez, ver o que consigo dele. Entretanto, não sei por quê, não toco nos assuntos que mais desejaria esclarecer. Peter está muito mais preso a mim do que pensa. Está apegado demais, e por enquanto não vejo maneira de sacudi-lo e fazê-lo firmar-se nos próprios pés. Ao compreender que ele não poderia ser para mim nem mesmo um amigo (no verdadeiro sentido que dou à palavra), pensei que ao menos poderia tentar arrancá-lo de sua estreiteza de mente e fazer com que realizasse qualquer coisa de proveitoso com sua mocidade.
"Pois em suas mais íntimas profundezas, a mocidade é mais solitária que a velhice." Li esta frase em algum livro, acho-a verdadeira e lembro-me sempre dela. Será verdade que os mais velhos passam por maiores dificuldades que nós? Não, sei que não é assim. Gente adulta já tem opinião formada sobre as coisas e não hesita antes de agir. É muito mais duro para nós, jovens, manter a firmeza e as opiniões em tempos como estes em que os ideais são destruídos e despedaçados, as pessoas põem à mostra seu lado pior e ninguém sabe mais se deve crer na verdade, no direito e em Deus.
Quem afirma que os mais velhos passam por dificuldades maiores certamente não compreende a que ponto nossos problemas pesam sobre nós; problemas para os quais somos jovens demais mas que aparecem continuamente até que acreditamos, depois de muito tempo, haver encontrado uma solução; só que a solução parece não resistir aos fatos que, de novo, a reduzem a nada. Esta é a maior dificuldade desses tempos: surgem dentro de nós ideais, sonhos e esperanças, só para encontrarem a horrível verdade e serem despedaçados.
Realmente, é de admirar que eu não tenha desistido de todos os meus ideais, tão absurdos e impossíveis eles são de se realizar. Conservo-os, no entanto, porque apesar de tudo ainda acredito que as pessoas, no fundo, são realmente boas. Simplesmente não posso construir minhas esperanças sobre alicerces formados de confusão, miséria e morte. Vejo o mundo transformar-se gradualmente em uma selva. Sinto que estamos cada vez mais próximos da destruição. Sofro com o sofrimento de milhões e, no entanto, se levanto os olhos aos céus, sei que tudo acabará bem, toda essa crueldade desaparecerá, voltarão a paz e a tranqüilidade.
Enquanto isso, é necessário que mantenha firme meus ideais, pois talvez chegue o dia em que os possa realizar.

Sua Anne.







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