sexta-feira, 17 de junho de 2016

Terça-feira, 10 de dezembro de 1942 - O Diário de Anne Frank



O Diário de Anne Frank


Terça-feira, 10 de dezembro de 1942




Querida Kitty


O sr. Van Daan trabalhava no comércio de carne, salsicha e especiarias. Foi por causa de seu conhecimento nesse ramo de negócios que foi aceito na firma de papai. Agora ele está mostrando suas qualidades de salsicheiro, o que não é nada desagradável.
Encomendamos uma boa quantidade de carne (no câmbio negro, é claro) para fazer conserva, tendo em vista os maus tempos que poderão vir. Foi engraçado ver, primeiro, a maneira como os pedaços de carne eram passados pela máquina de moer, duas ou três vezes; depois, como os outros ingredientes eram acrescentados à carne já moída e, finalmente, como a tripa era recheada com o auxílio de um bico, ficando prontas, então, as salsichas. Fritamos a carne que sobrou e a comemos com chucrute na hora do jantar, mas as salsichas Gelderland tinham de secar completamente; por isso, penduramos todas elas num pedaço de pau amarrado ao teto com barbante. Todos os que chegavam à sala desatavam a rir ao dar com aquela fileira de salsichas penduradas. Estava mesmo engraçado de se ver!
O quarto ficou numa bagunça indescritível. O sr. Van Daan usava um dos aventais da esposa amarrado em torno de sua volumosa figura (parecia ainda mais gordo do que é) e lidava com a carne. Mãos sujas de sangue, rosto avermelhado e avental todo manchado, mais parecia um açougueiro. A sra. Van Daan tentava fazer várias coisas ao mesmo tempo, como, por exemplo: aprender holandês por meio de um livro, mexer a sopa, dar palpites no trabalho do marido e suspirar queixando-se de dor na costela partida. Isso é o que acontece a senhoras idosas (!) quando tentam fazer exercícios idiotas para diminuir seus enormes traseiros!
Dussel teve uma inflamação no olho e o estava banhando com chá de camomila, ao pé do fogo. Pim, que estava sentado perto da janela aproveitando um pouquinho de sol, era empurrado continuamente de um lado para outro. Além do mais, creio que seu reumatismo o estava incomodando, pois exibia um ar infeliz, todo curvado, a observar a trabalheira do sr. Van Daan. Parecia-se exatamente com um daqueles velhinhos enrugados e curvos que se vêem nos asilos. Peter ficava dando voltas no quarto, com o gato, fazendo acrobacias. Mamãe, Margot e eu descascávamos batatas, e é claro que fazíamos tudo errado, pois, na verdade, estávamos é observando o trabalho do sr. Van Daan.
Dussel abriu seu consultório dentário. Só para você rir um pouco, vou lhe contar a história de seu primeiro cliente. Mamãe estava passando roupa, e a sra. Van Daan foi a primeira a enfrentar a penosa prova. Sentou-se na cadeira no meio da sala. Dussel começou a tirar os instrumentos da sua maleta, com ares importantes. Pediu um pouco de água de colônia para usar como desinfetante e vaselina para substituir a cera.
Examinou a boca da sra. Van Daan e encontrou dois dentes que, ao toque, a faziam dobrar-se toda, como se fosse desmaiar, soltando grunhidos de dor. Após um demorado exame (no caso da sra. Van Daan não durou mais do que dois minutos), o sr. Dussel começou a raspar um dos orifícios. "Mas não fique preocupada!" — a coisa ia além de suas possibilidades; — a paciente agitava braços e pernas em todas as direções até que, em certo momento, ele largou o instrumento de raspar... que ficou espetado no dente da sra. Van Daan!
Aí então a coisa ficou preta! Ela berrou (tanto quanto era possível com um instrumento como aquele grudado em seu dente), tentou arrancar o instrumento da boca, mas só conseguiu empurrá-lo ainda mais para o fundo. O sr. Dussel, com as mãos na cintura, ficou tranqüilamente a assistir a toda a cena. O resto do auditório não se conteve e ria a mais não poder. Foi feio de nossa parte porque eu, pelo menos, sei que gritaria ainda mais do que ela. Finalmente, depois de muito virar-se, gritar, sapatear e gemer, ela conseguiu livrar-se do instrumento, e Dussel continuou a trabalhar como se nada houvesse acontecido!
E o fez tão rapidamente que a sra. Van Daan nem teve tempo de recomeçar com seus fricotes. Mas ele nunca teve tantos ajudantes em sua vida. Dois, pelo menos, lhe foram de grande utilidade: o sr. Van Daan e eu, que nos desempenhamos bem de nossas funções. A cena parecia uma pintura da Idade Média intitulada Um charlatão em ação. Nesse meio tempo, a paciente já se impacientara, pois tinha de vigiar a "sua" sopa, a "sua" refeição. Uma coisa posso garantir: a sra. Van Daan não vai se arvorar novamente em ser atendida antes dos outros!

Sua Anne.






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