sábado, 21 de maio de 2016

Quarta-feira, 8 de julho de 1942 - O Diário de Anne Frank




O Diário de Anne Frank


Quarta-feira, 8 de julho de 1942


Querida Kitty


Parece que se passaram anos de domingo até hoje. Tanta coisa aconteceu, que é como se o mundo tivesse virado de cabeça para baixo. Mas ainda estou viva, Kitty, e isso é o que importa, diz papai.
Sim, na verdade ainda estou viva, mas não me pergunte onde nem como. Você não entenderia uma única palavra, por isso vou começar lhe contando o que aconteceu no domingo à tarde.
Às três horas (Harry acabara de sair para voltar mais tarde) alguém tocou a campainha. Eu estava preguiçosamente deitada ao sol na varanda, lendo um livro, e por isso não ouvi. Pouco depois Margot apareceu na porta da cozinha, toda alvoroçada. — As SS mandaram uma notificação chamando papai — sussurrou ela. — Mamãe já foi falar com o sr. Van Daan. — (Van Daan é um amigo que trabalha na firma de papai.) Foi um choque para mim. Uma convocação! Todo mundo sabe o que isso significa! Pela minha imaginação começaram a passar campos de concentração, prisões. Permitiríamos que ele fosse condenado a isso? — É claro que ele não vai — disse Margot enquanto esperávamos juntas. — Mamãe já foi falar com os Van Daan para resolver se devemos ir para o esconderijo amanhã mesmo. Os Van Daan vão conosco, seremos sete ao todo.
Silêncio. Não conseguíamos trocar uma palavra, pensando em papai, que estava visitando uns velhinhos no Joodse Invalide [1] e nada sabia do que estava acontecendo. Enquanto esperávamos por mamãe, com aquele calor e naquela ansiedade, ficamos cada vez mais caladas e impressionadas.
Subitamente a campainha tocou. — É Harry — disse eu. Margot segurou-me, recomendando-me que não abrisse a porta, mas isso nem foi necessário, pois ouvimos mamãe e o sr. Van Daan conversando com Harry lá embaixo. Pouco depois entraram, trancando a porta. A cada toque de campainha Margot e eu nos esgueirávamos até a porta espiando com cuidado para ver se era papai. Não devíamos abrir a porta para ninguém mais.
Mamãe pediu que Margot e eu saíssemos da sala, pois o sr. Van Daan precisava lhe falar a sós. Sozinhas no quarto, Margot contou-me que a convocação não fora para papai, mas para ela. Fiquei mais assustada ainda e pus-me a chorar. Margot tem dezesseis anos. Será que eles levavam meninas dessa idade, sozinhas? Graças a Deus ela não vai. Mamãe mesma afirmou isso. Talvez papai se referisse a isso, quando falou em nos escondermos.
Esconder — para onde iríamos? Para a cidade, para o campo, para uma casa ou um chalé? Mas quando, como e onde?
Eu sabia que não podia formular essas perguntas, mas, por outro lado, não conseguia tirá-las da cabeça. Margot e eu começamos a guardar nossas coisas mais importantes nas pastas da escola. A primeira que guardei foi este diário, depois os rolinhos de cabelo, lenços, os livros da escola, um pente, velhas cartas. Guardei as coisas mais incríveis, ao pensar que nos íamos esconder. Não me arrependo; recordações valem muito mais do que vestidos.
Papai chegou finalmente às cinco horas, e telefonamos ao sr. Koophuis para saber se podíamos ir lá à noite. Van Daan foi apanhar Miep. Miep trabalha com papai desde 1933, e tornou-se nossa amiga íntima, tanto quanto Henk, com quem se casou há pouco tempo. Miep chegou e enfiou em sua sacola alguns sapatos, vestidos, casacos, roupas de baixo e meias, prometendo voltar à noite. A casa recaiu em silêncio. Ninguém quis comer nada, o calor continuava intenso, e tudo se tornou estranho. Alugávamos o quarto grande, de cima, a um tal sr. Goudsmit, homem divorciado, de seus trinta anos. Logo naquela noite ele parecia não ter mais nada a fazer, e ficou conosco até as dez horas sem que pudéssemos livrar-nos dele, a não ser que cometêssemos alguma indelicadeza. Às onze, Miep e Henk van Santen voltaram. Novamente, meias, sapatos, livros e roupas de baixo desapareceram na bolsa de Miep e nos enormes bolsos de Henk, até que, por volta de onze e meia, eles próprios desapareceram. Eu estava exausta e, apesar de saber que aquela seria a última noite que dormiria em minha própria cama, peguei no sono imediatamente, só acordando na manhã seguinte, às cinco e meia, quando mamãe me chamou. Felizmente, o calor não estava tão intenso como no domingo; uma chuva morna e constante caiu o dia inteiro. Vestimos montes de roupas, como se fôssemos viajar para o pólo norte, com a única intenção de levá-las conosco. Nenhum judeu em nossa situação sonharia sequer em sair à rua carregando uma mala com roupas. Eu vestia duas camisetas, três calcinhas, um vestido e, sobre ele, uma saia, uma jaqueta, um casaco de verão, dois pares de meia, sapatos de amarrar, um capuz de lã, um cachecol e mais algumas coisas. Estava quase sufocando antes de sair, mas ninguém tomou conhecimento disso.
Margot encheu a sacola com livros da escola, foi apanhar a bicicleta e saiu atrás de Miep para o desconhecido — pelo menos eu nem imaginava para onde. Imagine que eu ainda não sabia onde seria o nosso esconderijo. Às sete e meia fechamos a porta atrás de nós. Moortie, minha gatinha, foi a única criatura de quem me despedi. Ela ficaria com os vizinhos e seria bem tratada. Isso ficara escrito em uma carta dirigida ao sr. Goudsmit.
Havia meio quilo de carne na cozinha para a gata, a mesa do café ainda estava posta com as xícaras e pratos usados, as camas desfeitas, tudo dando a impressão de uma partida precipitada. Mas naquele momento não estávamos preocupados com impressões, só pensávamos em sair, fugir dali e chegar em segurança, nada mais. Continuo amanhã.

Sua Anne.










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