sábado, 20 de fevereiro de 2016

Segunda-feira, 28 de setembro de 1942




O Diário de Anne Frank


Segunda-feira, 28 de setembro de 1942


Querida Kitty


Ontem tive de parar antes de ter contado tudo. Quero lhe falar de outra briga, mas antes ainda há outra coisa a dizer.
Por que será que as pessoas grandes brigam com tanta facilidade e por coisas tão bobas? Sempre pensei que apenas as crianças batiam boca e que isso passava com a idade. É claro que às vezes há razões para uma boa briga, mas, por enquanto, tem sido só implicância. Acho que seria melhor eu me acostumar, mas não consigo e acho mesmo que jamais me acostumarei, principalmente enquanto for eu o objeto de quase todas as discussões (eles usam a palavra "discussão" em vez de "briga"). Nada, absolutamente nada do que faço está certo. Minha aparência, meu gênio, minhas maneiras, tudo é discutido do A ao Z. E esperam (autoritariamente) que eu agüente suas palavras grosseiras e seus berros, em silêncio. Não estou acostumada com isso. E jamais vou me acostumar! Não vou aceitar todos os seus insultos em silêncio. Vou mostrar-lhes que Anne Frank não nasceu ontem. Vão ter uma surpresa dos diabos e talvez, então, até calem a boca, quando perceberem que quem os está educando sou eu. Uma barbaridade! Fico simplesmente revoltada com suas maneiras horrorosas e principalmente com a estupidez da sra. Van Daan. Mas assim que eu me acostumar com isso — e não vai demorar —, vou lhes pagar na mesma moeda e não com meias medidas. Vão ter de mudar o tom!
Será que sou mesmo tão malcriada, convencida, teimosa, mandona, burra, preguiçosa, etc, etc, como todos dizem? Claro que não! Posso ter meus defeitos, como todo mundo tem, mas eles simplesmente exageram!
Kitty, se você soubesse como, às vezes, eu fico fervendo sob todas aquelas indiretas e zombarias! Não sei por quanto tempo vou agüentar e abafar a minha raiva. Qualquer dia vou explodir!
Bem, agora chega de tudo isto, acho que já aborreci bastante você com todas essas brigas. Mas, simplesmente, tenho de lhe contar uma discussão interessantíssima que ocorreu à mesa. Não sei como surgiu o assunto da extrema modéstia de Pim (apelido de papai). Mesmo as pessoas mais estúpidas são obrigadas a admitir essa qualidade de papai. Pois, de repente, vira-se a sra. Van Daan e diz:
— Eu também tenho uma natureza modesta, bem mais que meu marido.
Veja você! A própria frase já mostrava o quanto ela é pretensiosa e autoritária. O sr. Van Daan achou que devia dar uma explicação quanto ao que lhe dizia respeito.
— Eu não quero mesmo ser modesto. Na minha opinião, não vale a pena. — E dirigindo-se a mim: — Siga meu conselho, Anne. Não seja muito modesta e submissa. Não lucrará nada com isso.
Mamãe concordou, mas a sra. Van Daan, como sempre, teve de dar alguns palpites sobre o assunto. Sua observação era claramente dirigida a mamãe e a papai:
— Vocês têm um modo estranho de encarar a vida! Dizer uma coisa dessas a Anne! No meu tempo era muito diferente. Aliás, tenho certeza de que as coisas ainda são como antigamente, a não ser no moderno lar de vocês.
Era uma flechada certeira no modo como mamãe educava Margot e eu.
A essa altura, a sra. Van Daan já estava escarlate. Mamãe, bonita e fresca como uma rosa. As pessoas que enrubescem facilmente ficam afogueadas e excitadas, levando desvantagem em situações como essa. Mamãe, perfeitamente tranqüila, mas ansiosa por encerrar o assunto o mais breve possível, pensou por um momento e então disse:
— Eu também acho que leva a melhor nesta vida quem não é modesto demais. Meu marido, Margot e Peter, por exemplo, são excepcionalmente modestos, ao passo que seu marido, Anne, a senhora e eu, ainda que não sejamos o extremo oposto, não nos deixamos pressionar ou ser passados para trás.
A sra. Van Daan:
— Mas, sra. Frank, não posso concordar. Se sou tão modesta e retraída, como pode afirmar justamente o contrário?
Mamãe não se alterou:
— Eu não afirmei que fosse exatamente autoritária, mas ninguém poderá dizer que tem um temperamento acomodado.
A sra. Van Daan não se conteve:
— Vamos esclarecer as coisas de uma vez por todas. Gostaria de saber quando e como estou sendo autoritária. O que sei é que se não cuidar de mim mesma acabarei morrendo de fome.
Essa resposta absurda, em defesa própria, fez mamãe rir com gosto, o que irritou ainda mais a sra. Van Daan. Descontrolada, pôs-se a despejar palavras em alemão-holandês e holandês-alemão, até ficar completamente enrolada. Levantou-se, então, disposta a deixar a sala.
De repente, seu olhar caiu sobre mim. Você deveria tê-la visto. Para azar meu, naquele momento eu estava abanando a cabeça tristemente (meu gesto não tinha sido proposital, apenas o resultado de eu ter ouvido toda a conversa).
Nem queira saber. Ela veio em minha direção soltando uma porção de palavras grosseiras em alemão, com modos tão vulgares que mais parecia uma lavadeira — uma lavadeira ordinária de cara vermelha. Foi um verdadeiro espetáculo. Se eu soubesse desenhar, era assim que faria seu retrato. Puxa, ela é uma criatura tão grosseira, mal-educada e desagradável!
De qualquer maneira, uma coisa eu aprendi. Você só conhece mesmo uma pessoa quando tem com ela uma briga. Só então pode avaliar seu verdadeiro caráter!

Sua Anne.




Otto Frank


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